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Por que o azeite de dendê da Bahia corre o risco de faltar?

Alfredo Moreira FilhoAlfredo Moreira Filho

Poucos ingredientes representam tão bem a culinária baiana quanto o azeite de dendê. Na avaliação de Alfredo Moreira Filho, empresário, fundador e management do Grupo Valore+, cuja trajetória começou na roça em Igrapiúna, município que integra a chamada Costa do Dendê, a crise enfrentada pela produção na região mostra como cultura, economia e agricultura familiar estão profundamente ligadas no Baixo Sul baiano.

Nos últimos anos, produtores, pesquisadores e baianas de acarajé passaram a alertar para a queda na oferta do azeite produzido no estado e para o aumento dos preços. Entenda, nos tópicos a seguir, a origem dessa tradição, como funciona a produção e o que pode ser feito para recuperar a cadeia.

Uma herança africana na culinária baiana

O dendezeiro é uma palmeira de origem africana, trazida ao Brasil durante o período colonial, no contexto da diáspora de povos africanos escravizados. Na Bahia, a planta encontrou clima e solo favoráveis no litoral e se tornou base de pratos tradicionais como acarajé, moqueca, vatapá e caruru, além de ter importância nas religiões de matriz africana.

Do fruto do dendezeiro são extraídos dois tipos de óleo. O azeite de dendê, retirado da polpa, é o mais conhecido na culinária, enquanto o óleo de palmiste, obtido da amêndoa, é usado principalmente na fabricação de cosméticos. Como analisa Alfredo Moreira, poucos produtos agrícolas carregam um valor cultural tão forte quanto o dendê na Bahia.

A Costa do Dendê e o modelo de produção

A principal região produtora do estado é o Baixo Sul, conhecido como Costa do Dendê, que reúne municípios como Valença, Aratuípe, Igrapiúna, Cairu, Camamu, Taperoá, Nilo Peçanha, Ituberá e Maraú. Valença se destaca como centro comercial e de beneficiamento, abastecendo grande parte do mercado de Salvador.

O modelo de produção, no entanto, é bastante tradicional. Boa parte dos dendezeiros da região é formada por palmeiras subespontâneas, que cresceram sem plantio planejado, e a colheita ainda é feita por cortadores que sobem em árvores de até 25 metros com equipamentos rústicos. O processamento também é, em muitos casos, artesanal. A Bahia, que já respondeu pela maior parte da produção nacional, hoje está atrás do Pará, onde o cultivo é feito em escala industrial. Conforme contextualiza Alfredo Moreira Filho, a diferença entre os dois modelos ajuda a explicar a perda de espaço do dendê baiano.

Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Por que a produção vem caindo?

Pesquisadores da Universidade Federal da Bahia apontam uma redução expressiva no número de municípios baianos que produzem o azeite. Dos 66 que chegaram a ter produção, apenas cinco mantêm o plantio. O envelhecimento das palmeiras, a falta de renovação dos dendezais e a baixa produtividade estão entre as principais causas.

Os custos de produção também pesam. Em pequenas propriedades, o valor recebido pelo produtor muitas vezes não cobre os gastos com colheita, limpeza e adubação. Parte da produção ainda é direcionada para outros usos, como a fabricação de biodiesel, reduzindo a oferta para o mercado alimentício. O resultado aparece no preço pago por consumidores e comerciantes, especialmente pelas baianas de acarajé, que relatam aumento constante no custo do azeite. Segundo Alfredo Moreira, a crise mostra o risco de deixar uma cadeia tradicional sem investimento em modernização.

Caminhos para recuperar a cadeia

Uma das propostas defendidas por produtores e pesquisadores é a criação de uma Indicação Geográfica para o azeite de dendê da Costa do Dendê. Esse tipo de registro funciona como um selo que identifica a origem do produto e valoriza suas características, ajudando a garantir melhor remuneração a quem produz na região.

Outras medidas incluem a renovação dos dendezeais com mudas de maior produtividade, a mecanização de etapas do processamento e o fortalecimento de cooperativas que organizem a produção e a comercialização. Como o dendezeiro começa a produzir de forma econômica apenas a partir do terceiro ano e atinge o pico por volta do oitavo, os resultados exigem planejamento de longo prazo. Na leitura de Alfredo Moreira Filho, preservar o dendê baiano é também uma forma de proteger a identidade cultural e a renda de milhares de famílias do Baixo Sul.

Roman Valetsky