Com o avanço de práticas mais rigorosas de compliance e transparência no mercado brasileiro, Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, indica que a governança financeira deixou de ocupar um papel secundário nas organizações para se tornar um dos principais determinantes da saúde de longo prazo de qualquer estrutura corporativa. Em 2026, esse movimento ganhou contornos ainda mais nítidos: empresas com governança robusta apresentaram índices de inadimplência significativamente menores e maior capacidade de acesso a crédito em condições competitivas.
Uma pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas em março de 2026 revelou que companhias com estruturas formais de governança financeira, incluindo comitês de auditoria ativos e políticas documentadas de gestão de risco, tiveram uma taxa de recuperação de crédito 34% superior à média do mercado nos últimos três anos. O dado reforça o que especialistas do setor observam na prática: governança não é custo operacional, é proteção de valor. Vamos entender como essa lógica se traduz em decisões concretas de gestão.
Governança financeira além do cumprimento regulatório
Um equívoco recorrente entre gestores é tratar a governança financeira como sinônimo de conformidade regulatória. Cumprir as exigências da CVM, do Banco Central ou das normas contábeis vigentes é o piso mínimo, não o teto de uma estrutura bem construída. A governança financeira de qualidade vai além: estabelece critérios internos de decisão, cria mecanismos de controle que funcionam independentemente de exigências externas e produz uma cultura organizacional orientada à transparência e à responsabilidade.
Conforme analisa Felipe Rassi, empresas que confundem conformidade com governança tendem a apresentar estruturas frágeis justamente nos pontos cegos da regulação. Quando surgem situações atípicas, como uma renegociação de dívida complexa ou uma mudança abrupta nas condições de mercado, a ausência de processos internos sólidos se manifesta em decisões mal fundamentadas e, frequentemente, em perdas evitáveis.
O papel da transparência na relação com credores
A qualidade das informações financeiras disponibilizadas por uma empresa para seus credores influencia diretamente as condições de crédito que ela consegue acessar. Demonstrações financeiras consistentes, fluxos de caixa detalhados e relatórios de gestão que reflitam com fidelidade a situação real da companhia constroem uma relação de confiança com bancos, fundos e outros agentes do mercado de capitais, que se traduz, na prática, em spreads menores e prazos mais adequados.

Conforme apresenta Felipe Rassi, a ausência de transparência financeira é um dos fatores que mais frequentemente transforma um problema de liquidez temporário em uma crise de crédito irreversível. Quando o credor percebe que as informações recebidas não refletem a realidade da empresa, a resposta imediata é o endurecimento das condições ou a aceleração do vencimento da dívida. O que poderia ser resolvido por uma renegociação estruturada converte-se, assim, em um evento de inadimplência com consequências muito mais severas para todas as partes envolvidas.
Controles internos e sua relação com a recuperação de ativos
Do ponto de vista de quem atua no mercado de recuperação de ativos, a qualidade da governança financeira de uma empresa devedora é um dos primeiros elementos avaliados antes de qualquer decisão de aquisição de crédito. Empresas com controles internos bem estruturados oferecem ao comprador do crédito uma base de informações mais confiável, o que reduz a incerteza na precificação do ativo e, consequentemente, o deságio exigido.
Sob o entendimento de Felipe Rassi, a due diligence financeira conduzida em processos de aquisição de créditos estressados frequentemente revela que a deterioração da situação financeira de uma empresa tem raízes diretas em falhas de governança que antecederam a crise por dois ou três anos. Decisões de investimento sem aprovação formal, ausência de segregação de funções nas áreas financeiras e relatórios gerenciais que não dialogavam com a contabilidade oficial são padrões recorrentes nos casos de inadimplência corporativa mais graves registrados entre 2023 e 2026.
Governança como fator de competitividade no acesso ao mercado de capitais
O mercado de capitais brasileiro amadureceu consideravelmente nos últimos anos, e com esse amadurecimento veio uma exigência crescente de padrões mais elevados de governança por parte dos investidores. Fundos institucionais, gestoras internacionais e investidores qualificados incorporaram critérios ESG e de governança corporativa aos seus processos de análise de forma sistemática, e não apenas como elemento de marketing.
Para empresas que buscam acessar o mercado de capitais como alternativa ao crédito bancário tradicional, seja por meio de emissão de debêntures, CRIs, CRAs ou cotas de FIDCs, a qualidade da governança financeira passou a ser um fator determinante na viabilidade da operação. Como sinaliza Felipe Rassi, o investimento em governança precisa ser compreendido como uma decisão estratégica de médio e longo prazo, não como uma resposta reativa a crises ou exigências pontuais. As organizações que constroem estruturas sólidas de controle e transparência antes de precisar delas são exatamente as que conseguem atravessar ciclos adversos com menor dano e retomar o crescimento com mais velocidade quando o ambiente se normaliza.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez





