A crença é antiga e parece lógica: sem carboidrato disponível no estômago, o corpo seria forçado a recorrer direto às reservas de gordura, tornando o pedal em jejum uma espécie de atalho para emagrecer mais rápido. A parte curiosa é que essa lógica não está totalmente errada, apenas incompleta, e é justamente essa lacuna que costuma gerar confusão entre quem ouve a recomendação sem o contexto completo por trás dela.
Rolando Bonaccorsi, que soma à rotina de operações de tecnologia o hábito de pedalar, já ouviu essa recomendação sendo passada como verdade absoluta entre ciclistas amadores, quase sempre sem qualquer menção ao que a ciência mais recente encontrou quando testou essa ideia com rigor.
O que realmente acontece no corpo em jejum?
Depois de uma noite sem comer, os estoques de glicogênio, principal fonte rápida de energia do corpo, estão naturalmente mais baixos. Diante dessa escassez, o organismo aumenta a proporção de gordura utilizada como combustível durante o esforço, um mecanismo que a fisiologia do exercício já documentou de forma consistente ao longo de décadas de pesquisa.
Essa parte da crença, portanto, tem respaldo real: estudos confirmam esse aumento na oxidação de gordura durante sessões em jejum, especialmente em intensidades baixas a moderadas, como um pedal tranquilo pela manhã antes do café.
O problema não está nessa observação isolada, está no que as pessoas concluem a partir dela. Queimar proporcionalmente mais gordura durante os noventa minutos de pedal não é a mesma coisa que terminar o dia com menos gordura corporal acumulada no total, e é exatamente essa diferença que separa o fato fisiológico do mito popular construído em cima dele.
Por que isso não significa emagrecer mais?
O corpo busca equilíbrio energético ao longo do dia inteiro, não apenas durante a janela específica do treino. Quem queima proporcionalmente mais gordura pela manhã, em jejum, tende a compensar essa diferença utilizando mais carboidrato como combustível no restante do dia, algo que a maioria das pessoas simplesmente não percebe acontecer.
Essa distinção entre queima durante o exercício e resultado final acumulado ao longo de vinte e quatro horas costuma passar despercebida, justamente porque a primeira parte é mais fácil de medir e de divulgar em redes sociais do que a segunda, mais complexa e menos visível no calor do momento do treino.
Além disso, Rolando Bonaccorsi alude que existe um efeito colateral comportamental pouco discutido: quem treina em jejum costuma sentir fome mais intensa depois da sessão, o que frequentemente leva a porções maiores nas refeições seguintes, compensando, sem perceber, parte da vantagem calórica que o treino em jejum supostamente teria criado.
O que o estudo mais recente encontrou sobre performance?
Um estudo conduzido por pesquisador que trabalha diretamente com equipes de elite do ciclismo mundial comparou, ao longo de cinco semanas, ciclistas treinando em jejum com dieta restrita em carboidrato contra ciclistas seguindo dieta rica em carboidrato. O resultado não mostrou diferença significativa de performance entre os dois grupos, nem nos parâmetros de oxidação de gordura que a teoria original prometia melhorar de forma consistente.
Esse achado é especialmente significativo, pois desafia a fase em que o treino em jejum se tornou popular entre os profissionais, sendo amplamente adotado por equipes de elite na expectativa de aprimorar a eficiência metabólica na queima de gordura durante competições longas e desafiadoras. Nesse contexto, Rolando Bonaccorsi vê esse resultado como um lembrete importante, visto que a prática promovida por equipes de elite não garante, por si só, uma vantagem fisiológica, especialmente quando pesquisas mais recentes e rigorosas indicam uma direção contrária ao que se acreditava anteriormente.
Diante desses resultados, muitas equipes de alto rendimento vêm revisando a prática, priorizando novamente estratégias nutricionais que garantam energia suficiente antes de esforços intensos, em vez de restringir carboidrato como forma de forçar adaptação metabólica.
Quando ainda faz sentido pedalar em jejum
No final, Rolando Bonaccorsi expressa que isso não significa que pedalar em jejum seja inútil ou deva ser abandonado por completo. Para quem treina cedo e prefere não comer antes, ou para quem busca simplesmente economizar tempo de preparo pela manhã, a prática continua sendo opção logisticamente válida, sem prejuízo relevante em treinos curtos e de intensidade moderada.
O que muda, com base no que a evidência mais recente mostra, é a expectativa por trás da escolha. Pedalar em jejum não deveria ser tratado como estratégia mágica de emagrecimento ou performance, mas como preferência pessoal de rotina, válida para quem se adapta bem a treinar sem comer antes, sem exagerar na promessa de resultado que a ciência atual simplesmente não confirma com a mesma força que o discurso popular costuma sugerir.





